segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Um domingo diferente

Embora o turismo em Mendoza esteja em franco crescimento, esse é um movimento novo e a cidade ainda está se adaptando.

Foi neste contexto que saímos de manhã cedo para tentar achar alguma bodega para visitar. Fomos ao centro de informações ao turista que estava aberto. A atendente nos indicou o que seria a única agência de turismo aberta aos domingos.

Partimos para lá e nos deparamos com a porta fechada. Andamos um pouco e achamos outra loja aberta. Entramos e conversamos com o dono. Logo percebemos que ele era estrangeiro de algum país de língua inglesa, no mesmo momento mudamos para o inglês.

Ele explicou o estado das coisas e nos disse que seria muito difícil achar algo fazer. Agradecemos muito e voltamos para a loja que estaria aberta. Encontramos o dono e tentamos acertar um passeio para o dia, nada feito. Pegamos umas informações e saímos. Pouco depois de sair, o John deu a ideia de já fechar o pacote para o dia seguinte. Concordei e voltamos para a loja. Fechamos uma excursão para duas bodega e uma fábrica de azeite. Também acertamos para ir direto ao aeroporto. Um táxi a menos!

Tudo acertado para o dia seguinte, ainda faltava achar o que fazer no dia. Já no hotel liguei para diversas bodegas tentando uma vaga para um almoço com degustação. Não encontramos nada. Eu não fazia ideia da movimentação no fim do ano, lição apreendida.

Achamos um museu e uma bodega antiga abertos para visitação. Fomos primeiro ao Museu Nacional do Vinho. Logo que chegamos o guia nos explicou que tratava-se de uma casa. Era a casa do fundador da bodega que iríamos visitar. A casa era a mais rica da região e seu dono, assim que terminou de construí-la, voltou à Europa já rico.

Mendoza é praticamente um deserto, só há verde onde a água chega. E para chegar água, que vem do degelo da neve da cordilheira, diversos canais foram construídos e em todas as ruas da região se pode vê-los.

No início do século a cidade devia ser extremamente pacata, a decisão do dono é compreensível tendo estas informações em consideração.

De todos os modos, a casa era muito impressionante com tantos detalhes trazidos da Europa para sua construção.

Após a visita fizemos uma degustação de vinho e azeite de produtores menores. Achei os produtos muito bons, levei um azeite e um vinho.

Seguimos para a bodega Giol. Essa já foi a maior bodega da Argentina e toda a planta é antiga. Uma lástima que ela não estivesse mais em funcionamento, mas pudemos ver como se produzia vinho antigamente.

Depois da visita, novamente degustação. Entendemos que aquela visita era feita por uma empresa diferente da dona da bodega. A bodega em si havia sido estatizada e arrendada por uma cooperativa, porém a mesma decidiu não continuar com a produção.

Ficamos de papo e no fim o dono nos ofereceu carona para Lujan. Mais um lugar que conhecemos!

De janta, novamente parrillada!

domingo, 29 de dezembro de 2013

Rumo ao Aconcágua

Esqueci de contar algo bem legal que aconteceu na visita à vinícola La Rural. No final do passeio, havia uma degustação. O valor pago pela visita podia ser convertido em compras.

Na boca do caixa escutei dois israelenses conversando, eu me apresentei em hebraico e consegui ficar de papo com eles por mais de minutos usando pouquíssimas palavras em outros idiomas. Achei incrível como depois de três anos ainda consiga manter uma conversação fluente!

O dia de fato foi bem cheio. Acordamos cedo e esperamos o ônibus da excursão. A primeira coisa que visitamos foi a estrada chamada Caracoles, uma estrada sinuosa que leva à pré-cordilheira. Num determinado ponto nos detivemos e saímos para poder sentir mais o lugar. O cheiro das flores cobriam o ambiente, e cada planta tinha um cheiro bem diferente da outra.

O silêncio é inspirador. Somente passarinhos e insetos faziam ruído. A ausência de ruídos quotidianos me fez lembrar de quando mais novo, época na qual minha família sempre tinha uma casa alugada na serra, eu gostava muito de viajar para aqueles lugares.

Seguimos caminho, em determinado ponto vimos um grande número de montanhas com geleiras. Uma abertura de 150°, disse o guia, sem transferidor nem compasso não consegui conferir. Mas a vista era bem bonita de fato.

Fizemos mais duas paradas para visualizar montanhas. Numa vimos ao longe diversas delas recobertas de neve e na outra o Aconcágua, ponto de maior altitude nas Américas. Esse tipo de formação natural é muito imponente.

E quando posta em perspectiva, nos traz novamente para o simples, nos faz lembrar de que somos parte de um conjunto bem maior e que embora tenhamos um grande poder de influência na natureza, ela quase não toma conhecimento de nossos desejos.

Eu sempre busco encerrar estes encontros com o magnífico como uma oportunidade de me centrar na humildade.

Logo em seguida, no outro ponto que visitamos, relembramos como a natureza é incrível e como o homem tem o potencial de interferir negativamente.

A Puente del Inca é uma formação rochosa esculpida pelo rio que desce a cordilheira. O rio furou a pedra e fez uma espécie de ponte. Não batesse isso, por se uma região rica em ferro e compostos de enxofre, a terra e as pedras tem uma cor amarelada característica.

A formação é linda, mas como falei, o homem em seu egoísmo construiu colado ao monumento natural uma estância de banhos termais. Por uma questão de segurança, não se permite caminhar mais pela ponte. E a estância de banho também está fechada, sobrando a horrorosa construção, lembrando-nos da soberba do homem que teima em não admitir que é parte integrante da natureza e não dona dela.

Seguimos até o último povoado antes de chegar ao túnel que liga a Argentina ao Chile. Embora próximo, não podíamos avistar o túnel de onde paramos. O ônibus estacionou perto do restaurante e não seguiu.

Decidimos continuar o percurso à pé. A ida tomou uns vinte e cinco minutos. Como só nos foi dado quarenta e cinco, fiquei um pouco preocupado com a volta. Vimos o túnel e começamos a pedir carona de volta. Nenhum caminhão parou, até que um carro com a placa do Chile parou e nos deixou de volta no restaurante. O motorista havia ido ao Rio neste mesmo ano, que coincidência!

Ainda tivemos tempo para comer. Na volta à Mendoza paramos para ver o dique que represa as águas do rio de mesmo nome que a cidade. Que diferença a cor da água que chega da cor que toma a represa. É impressionante.

Na estrada de volta vimos uma quantidade enorme de vinícolas. A região de fato respira vinho.

sábado, 28 de dezembro de 2013

A primeira vinícola

A noite foi difícil de dormir, unicamente porque o ar-condicionado é controlado por fora, ou seja, liga-se ou desliga-se o mesmo pedindo-se na recepção.

O plano do dia era visitar vinícolas. Fomos alugar um carro, o que parecia simples, mostrou-se impossível. Não havia um carro disponível.

A disponibilidade mais próxima era início de Janeiro. Não havia escapatória. Tivemos de ir para Coquimbito de ônibus. De lá podíamos alugar umas bicicleta ou visitar as vinícolas à pé. Optamos pela segunda opção.

Caminhar no sol foi um pouco incômodo, especialmente porque eu não havia passado protetor solar.

Fomos à vinícola, La Rural, mas o passeio era mais tarde, então o almoço foi a conclusão óbvia, comigo comida é sempre boa conclusão. Comemos num bom restaurante, Casa de Campo, o serviço era demorado, no entanto.

Voltamos à vinícola e iniciamos o passeio. Primeiro visitamos as parreiras, descobri que a produção média dura 80 anos.

A vinícola, por sinal, é bem famosa. Ela produz os vinhos Rutini, dentre outros renome. Atualmente o vinho mais caro da Argentina foi fabricado por eles em 1981.

Clima, altitude, tipo de terreno, tudo parece influenciar no sabor final do vinho.

A prensagem também varia conforme o tipo de vinho. O tinto leva casca. O que mais me surpreendeu foi que ao acrescentar aditivos, pouco, ou nada, do gosto é modificado. O que se modifica é a coloração. Achei isso bem artificial em comparação ao processo de fabricação de outras bebidas que conheço.

Depois da visitação, voltamos para o hotel no caminho conseguimos contratar excursão para chegar mais perto dos Andes e visitar alguns pontos de interesse como El puente del Inca e a base para a escalada do Aconcágua. O dia vai ser longo e promete.

A chegada à Mendoza

A saída de Buenos Aires foi tranquila. Achei o aeroporto Aeroparque bem organizado em comparação com a última vez em que estive.

Despachar a mala me deixou um pouco apreensivo. Eu comprei um sifão, ou seja, uma garrafa de vidro, e não queria despachar com medo de quebrar. Tampouco queria ser barrado pela fiscalização. Dilema difícil. Optei por despachar.

O voo foi tranquilo. Eu havia combinado de encontrar com o John no aeroporto e foi o que fizemos. A ideia era alugar um carro e ir de carro à Mendoza.

Como ele ainda iria demorar para chegar no aeroporto fui conferir os preços de aluguéis. O preço seria razoável com o câmbio do mercado paralelo (1 usd para 10 pesos), agora, o câmbio oficial é triste (1 usd para 6 pesos).

Gastar sem ser em espécie é jogar dinheiro no lixo. Mais triste é o governo manter essa situação. A Argentina tem o péssimo histórico de economia conturbada, de fato é uma pena que os governantes sejam tão aquém do que merece o povo.

A solução de alugar o carro me incomodava não só pela moeda, mas também pelo perigo que é dirigir na Argentina. Os acidentes são normalmente gravíssimo e eu queria evitar este tipo de preocupação. Averiguamos um voo e saía bem próximo da hora em que estávamos.

Embora perdendo no câmbio, pensei que se houvesse comprado do Brasil, pagaria o mesmo valor. Por fim decidimos ser esta a melhor solução. Ambos de acordo, compramos e corremos para despachar nossas malas.

Eu pedi para sinalizar que minha bagagem era frágil. A moça disse que não podia fazer nada e me falou que eu podia levar comigo. Fiquei indeciso mas optei por levar comigo. Mas até tomar a decisão, a mulher falava daquela maneira que poucas pessoas conseguem, naquela espécie de tom desafiador. Consegui isolar este fato para a decisão não ser influenciada.

Correu tudo bem no voo, chegamos à Mendoza e fomos para o hotel. Rodando boa parte da cidade, almoçamos num ótimo restaurante regado a vinho. De lá saímos para conhecer um parque enorme que fica a Oeste da cidade, em direção à cordilheira. O parque era enorme e havia muita gente praticando esportes. Até um estádio havia, chamado de Ilhas Malvinas. Eles não deixam esta história de lado.

No fim do dia encontramos com um camarada que conheci em Londres. Ele é do Canadá e agora está viajando pela América do Sul.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Uma outra viagem à Argentina

Eu tenho uma visão diferente Buenos Aires, como morei aqui não considero turista tradicional. Eu até posso fazer coisas turísticas, mas tenho sempre uns perspectiva distinta.

Cada vez que vim a Buenos Aires tive sensação diferente. Lendo as notícias e sabendo recente história do país vim com curiosidade saber a Argentina está voltando aos anos inflação alta, e problemas das mais diversas ordens.

O primeiro ponto que chama a atenção é a questão câmbio. Enquanto o governo teima em fixá-lo, nas ruas trocam dólares por praticamente o dobro do valor. Viajar para um país assim não é confortável.

Se você não conhece alguém que faça o câmbio você duas opções, ou aceitar a taxa oficial perdendo dinheiro ou se arriscar e trocar na rua.

Deixando de lado a situação econômica, o aspecto da cidade também chama a atenção. Uma arquitetura linda, mas mal cuidada pelos seus moradores.

Acho que os povos são bem complexos. A Argentina é um país que sempre me intrigou. O grau de instrução deles é maior em média que o dos brasileiros, e com essa informação eu faço várias suposições que não se concretizam como verdadeiras.

Por exemplo, o trânsito em Buenos Aires é caótico. Um pequeno exemplo é que as faixas não são respeitadas. Se dirige num constante zigue zague. Por outro lado os pedestres são bem respeitados quando vão atravessar as ruas.

Na rua as pessoas andam com cachorros que se aliviam por todos os lados, porém, ao passar por uma pessoa mais pobre que ocupava a calçada, a mesma tira seus pertences da frente e se desculpa.

Andando pela rua Florida, vi um grupo de pedintes. Uma criança bem pequena estava entre eles. Se aproxima uma menina de uns 16/17 anos e pega a criança no colo. Depois vejo que ela conversa com uma das adultas do grupo e mexe na bolsa. Em um minuto ela está maquiando a adulta. Que cena legal! Empatia último grau!

De um modo geral sinto, e pode ser puro preconceito, que povos latinos fazem questão esforçar o estereótipo de ser passional. Isso me ajuda a entender essa equação que se recusa a ser resolvida.